Luz e Sombra – O Lado Negro da Força

A luta entre luz e sombra talvez seja o mais antigo dilema da humanidade consciente, ou seja, desde o momento em que nós, enquanto humanidade, passamos a nos reconhecer como grupo de indivíduos e como coletividade. A disputa entre valores coletivos e os impulsos individuais é uma aflição constante.

Tanto na ficção, quanto na vida real, este é um tema que está sempre presente. Para toda ação ou decisão, sempre haverá a dúvida quanto ao que é mais correto em se fazer, sobre quais valores devem prevalecer e, finalmente, sobre qual o “lado” da força é que devemos dar ouvidos.

Os impulsos para agirmos são muitos, alguns dele repletos de altruísmo e benevolência e tanto desprendimento que, se não formos freados por alguém (ou por nossas consciências) entregamos até a própria roupa e o último centavo para quem necessite.

Já outros impulsos são dotados de tanta avareza e amargor que somos capazes de negar o pão a um faminto, mesmo em plenas condições de ajudar. Novamente, há um impulso maior que nos leva a agir de forma diversa e procurar o meio termo em nossas ações.

Com o jovem Anakin Skywalker não foi diferente. Sua trajetória é o centro da parte mais importante da história de Star Wars e gira em torno da batalha que este jovem trava em busca do que acredita ser o certo e justo, enquanto tenta lidar com as emoções e sentimentos que vão aflorando.

Não à toa seu caminho até o Lado Negro da força vem arregimentando fãs há mais de quarenta anos, pois talvez, no fim das contas, Darth Vader seja, de fato, o mais humano de todos os personagens da saga concebida por George Lucas.

Decidir entre ente luz e sombra é uma luta interna de cada ser humano e sua principal expressão é a dificuldade que temos em saber se estamos agindo “certo” ou “errado”. Coloco desta forma pois, como tudo no universo, o “certo” e o “errado” são relativos e tudo depende dos valores, ensinamentos e crenças que carregamos desde o berço até o túmulo.

O Conceito de Certo e Errado

Na história da humanidade, passamos por diversos momentos onde houve uma grande mudança no paradigma sobre o certo e o errado. Nos primórdios da civilização, prevaleciam os valores individuais sobre os coletivos, em absoluto.

Tudo era regido pela vontade individual caso alguém fizesse algo em prejuízo de outra pessoa, este prejudicado se vingaria, faria “justiça” com as próprias mãos da forma como bem entendesse, pois não existia qualquer parâmetro, nada o impediria.

Quando surgem os bandos, os primeiros agrupamentos sociais de humanos que, mais tarde, dariam origem às primeiras tribos e aldeias, surge a necessidade de se estabelecerem regras comuns a todos, além de uma liderança, capaz de julgar conflitos que lhe fossem apresentados.

Neste momento, mesmo dentro dos grupos, a vontade individual prevalecia. Se alguém fosse ofendido, lesado, tivesse algo furtado de si, esta pessoa poderia tranquilamente decidir como recomporia seu dano ou prejuízo, decidindo inclusive sobre a vida e a morte daquela pessoa que o lesou.

A primeira tentativa registrada de se estabelecer algum parâmetro para essa vingança privada foi o Código de Hamurabi, que institui, dentre outras coisas, a Lei de Talião (olho por olho, dente por dente), ou eja, que a vingança se limitaria à proporção do dano. Sendo assim, por exemplo, aquele que fora furtado não poderia mais matar quem o furtou, somente recompor seu prejuízo e impor algum castigo físico. A vingança pessoal estava limitada daquele momento em diante.

Para nós, a Lei de Talião parece algo brutal mas ,naquele momento da história, dada a forma como se resolviam os conflitos, ela foi necessária com um limite a quem buscava a autotutela da sua vingança. Sendo assim, quem extrapolasse em sua vingança estava cometendo um crime e, partir de então, o que era tido como certo até aquele momento, passou a ser errado.

Da mesma forma, as palavras de Cristo mudaram o paradigma: Jesus pregava o amor e o perdão, oferecer a outra face, ou seja, mostrar ao agressor, ao ofensor, que se pode fazer de outra forma. Cristo pedia para que relevassemos, para que procurassemos compreender o outro e deixassemos a vingança pra lá.

Evolução não é sinônimo de resignação absoluta

Dois mil anos depois estas palavras ainda ecoam em nossa sociedade e, muitas vezes, ao exigirmos o que julgamos ser justiça, nos deparamos com o dilema entre obtermos o que de direito e exercitarmos o trabalho árduo do perdão, relevando as ofensas, perdoando e nos libertando deste sentimento.

A visão Cristã exerce forte influência desde então, aliada às histórias de santos e mártires que de tudo abriram mão, de tudo abdicaram em nome de suas “missões”, suportando os piores desafios, passando por penúrias e sofrimentos terríveis.

Os santos e mártires não se revoltaram nem sequer contra seus algozes e isso reforçou ainda mais a idéia de que andar pela “luz” é resignação e que o contrário disso é involução, é sucumbir à sombra.

A visão de mundo secular, mundana, tem muito bem definido o fato de que “quem deu, toma”, “bateu, levou” e que o pragmatismo na hora de agir e se relacionar com os outros é o que manda. Quando nos espiritualizamos, buscamos, automaticamente, nos afastar dessa visão e de tudo que possa remeter a ela.

Assim, tudo que consideramos elevado, belo, se torna a “luz” e tudo que reside no mundano, no não-caridoso, não-autruísta e não-resignado se torna a “sombra”.

Ou seja, por todo esse contexto, fomos levados a crer que espiritualizar-se e elevar-se significa renegar, inclusive, nossos instintos primais de auto defesa e auto preservação.  Ou seja, evoluir seria aceitar tudo calado e não se rebelar nunca contra o que nos acontece de ruim, o que nos fere, nos magoa. Evoluir seria aceitar a dor sem fazer nada a respeito e ainda ser grato. Mas evolução não tem nada haver com isso!

O Lado Negro da Força

Anakin Skywalker se torna Darth Vader ao permitir que o medo o dominasse. Mas mesmo o Lord Vader não era 100% sombra, sua luz ainda brilhava e resplandeceu em seu último momento.

Nós somos compostos por luz e sombra. A luz somente faz sentido quando rompe a escuridão e as trevas, por sua vez, somente existem onde a luz não chega.

Mas assim como a luz, a existência das trevas é absoluta. Luz e sombra se opõe e se completam em um ciclo infinito onde em cada momento uma delas se sobressai. O movimento dessa disputa entre luz e sombra gera o equilíbrio, seja no mundo ou em nós mesmos.

Na saga Star Wars , os seis primeiros filmes têm como verdadeiro protagonista um personagem que trava a mais árdua (e inglória) das batalhas de qualquer ser humano: A luta contra a própria sombra.

Anakin Skywalker, futuramente o Lord Vader, é colocado frente a frente com seus piores medos desde muito cedo e a falta de preparo, inclusive de seus mestres Jedi, cria um cenário que o faz sucumbir. No jovem Anakin, o medo gerou ódio, que o fez achar que o poder seria a resposta para seus conflitos internos.

Por outro lado, seus mestres Jedi se fecharam em uma estrutura que buscava pureza e perfeição. Refutavam quaisquer sentimentos que pudessem turbar sua força, mantinham-se sempre serenos e focados e evitavam contatos mundanos,  até mesmo qualquer relacionamento afetivo. Sucumbiram ao Império.

Seja Vader ou os Jedi, ambos tropeçaram em seus egos ao tentarem fugir de suas essências. Refutar os sentimentos que habitam seu interno e tentar sepultar seus medos, soterrando os sentimentos em vez de enfrentá-los. Esta é a receita para que tudo dê errado.

E não é somente na ficção que isso pode acontecer. Renegar a nossa natureza humana, nossas contradições e nossa sombra pode ser catastrófico.

Somos inegavelmente seres de alta complexidade. Nossa psique, nossos instintos e impulsos e, em um panorama mais profundo, nossa alma eterna, carregam sentimentos e emoções conflitantes e muitas vezes completamente antagônicos. Somos ao mesmo tempo um poço de bondade e um abismo de egoísmo.

E talvez viver a vida seja andar em uma corda bamba entre o poço, de um lado, e o abismo, do outro. A bondade e a generosidade desmedida, sem reflexão, nos expõe à maldade, permite que outros nos tirem proveito. Do mesmo modo, a vida sem generosidade é mesquinha e nos esvazia por completo. O meio termo é o caminho.

Mas esse meio termo somente vem quando confrontamos nossos sentimentos, nossos impulsos. E é exatamente onde descobrimos que os sentimentos que estão lá, na nossa sombra, são também irmãos dos instintos de proteção e de preservação. A força que está na sombra é que nos acorda, nos choca, nos permite estar alerta e atentos aos perigos e armadilhas do mundo.

Ou seja, quando nós soterramos as emoções que habitam nossas sombras, ocultamos também partes importantes da nossa personalidade e sufocamos também sentimentos e impulsos que carregam mecanismos essenciais para nossa vida. E isso é um crime hediondo que cometemos contra nós mesmos

Uma Nova Esperança

Não existe fórmula mágica ou receita milagrosa: Precisamos encarar, sem medo, a nossa sombra e, sem julgar, sem recriminar, entender quais são os nossos sentimentos, emoções, desejos e temores mais profundos, mais sórdidos e indesejáveis, pois é somente assim que podemos nos conhecer por completo.

Uma vez lá dentro, não odeie e não tema esta parte tão importante da sua personalidade e, ao contrário do que você possa pensar em um primeiro momento, aceite-a, como ela é, e a ame, a fim de transformar e ressignificar tudo que está lá dentro.

Cada medo é resultado de uma ferida muito profunda e anterior. Cada desejo inconfessável não é nada além do que a expressão crua da natureza humana. Cada ação egoísta é surge em função do sentimento de auto preservação que, naquele momento, está mal direcionado.

Olhe pra dentro de si, aceite o que encontrar, se ame profundamente e sem medo. Somente por meio do amor é possível fazer a integração entre seus pólos aparentemente opostos mas que são, na verdade, absolutamente complementares.

E é também por meio do amor, na integração de luz e sombras, que aprendemos a buscar, lá no fundo, e tirar da sombra a força que em muitos momentos nos falta, com a diferença de que quando o amor atua, esta força chega até nós de uma forma dirigida e muito mais poderosa.

Nós precisamos da força do nosso lado negro, de nossa sombra, pois sem ela não estamos completos e sempre vai nos faltar um pedaço.

A busca por algo que, muitas vezes não sabemos o que é e muito menos onde encontrar, decorre do vazio impreenchível que nos assola quando tentamos sufocar a nossa sombra.

Não rejeite os sentimentos que não você aceita em si, procure entendê-los. Não os sufoque. Não tente matar sua sombra, em vez disso, ouça o que ela tem pra te falar, peça sua opinião, converse, dance com ela.

Aceitar nosso verdadeiro eu nos liberta das amarras do que nos é imposto. Não aceite (tentar) mudar a sua essência por quem quer que seja, ninguém tem esse poder e muito menos o direito de te exigir isso.

Aceite sua sombra e venha para o Lado Negro da força, ou melhor, traga sua sombra para passear do lado de fora. Talvez vocês se tornem os melhores amigos.

Axé!

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