Correr pra incorporar?

Conhece a corrida de 100 metros rasos? E a Umbanda de 100m rasos?

Essa é aquela corrida que acontece em uma linha reta e dura alguns segundos, e o atleta precisa se esforçar ao máximo para chegar primeiro nesse pequeno espaço de tempo.

Sabe que muita gente quando ingressa na corrente mediúnica acaba caindo na “armadilha da competição” e achando que o terreiro é igual à essa corrida.
Pois por mais que todos entremos no terreiro cheios de amor no coração, querendo iluminar o mundo com nossa luz (e assim o fazemos, tenhamos certeza disso), após passado o furor das primeiras giras, a nossa parte humana fala mais alto e começamos a reparar nas coisas…
Começamos a prestar atenção na roupa do outro, nos trejeitos, reparamos como fulano vive caindo no chão, como faz barulho, etc etc…

E aí começamos a cair numa armadilha, de nos comparar com o colega ao lado. Só que tirando raras exceções, não conhecemos nada desse companheiro de corrente. Não sabemos nada sobre os problemas que o outro traz, as provas que ele tem que passar, sobre as experiências anteriores dele (ou dela) na Umbanda, no máximo só sabemos o que o outro quer falar de si mesmo.
E mesmo assim, embarcamos na competição com os colegas pra ver quem incorpora primeiro ou quem incorpora melhor.

E assim é dada a largada dessa corrida insana, em que todos querem chegar primeiro nesse objetivo de incorporar, como se houvesse algum prêmio pra quem chegasse primeiro lá.

É claro que todo mundo precisa de motivação na vida, mas será que nessa motivação, a prática da caridade já não foi posta de lado em nome da vaidade de ser o primeiro?

E afinal, qual o nosso objetivo na Umbanda, senão prestar a caridade? O crescimento pessoal, o autoconhecimento, e até a “ajuda” dos nossos bons guias são apenas conquistas que vem como um mérito por termos conseguido auxiliar aos outros no bem. Se a máxima “fora da caridade não há salvação” continua válida, o que mais poderíamos buscar ali do que auxiliar aos outros?

A competição de “quem incorpora melhor” tem qual objetivo? Se comparar com o próximo, numa briga em que cada um tenta demonstrar aquilo que não se é? No texto “Técnicas para incorporar melhor” eu já falei sobre como cada um dá aquilo que tem, e reafirmo: cada um tem que ser como é. A espiritualidade superior não iria nunca nos colocar em uma situação em que nossos esforços fossem inúteis a ponto de nos fazer achar que só o jeito de incorporar do colega é válido.

Todo mundo traz em si uma semente de luz que é diferente pra cada um de nós. Cabe à gente entender essa semente e deixar germinar o que tiver de nascer e só assim poder oferecer algo a quem vier ser nosso assistido.
Porque a Umbanda não é corrida de 100 metros rasos, é maratona.

E na maratona não ganha quem corre mais, mas sim quem conhece melhor o próprio corpo, sabe de suas dificuldades e forças, e usa isso a seu favor.

Comentários

comentários

Cleber Quichimbí

Cleber 38 anos, filho de Oxalá... Idealista e emotivo. Metódico. Estudioso. Qualquer brinquedo é motivo para ser montado e desmontado. Este é seu maior desafio na vida: entender como as coisas funcionam nos mínimos detalhes.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *